Vou programar esse texto para ser publicado no futuro (que nesse momento, para você que está lendo, é presente!), mas o "causo" aconteceu na sexta-feira, dia sete. Fui para a aula de teatro normalmente, como toda sexta, e lá um dos meus personagens tinha que vomitar e tal. Depois no metrô, estava comentando com uma amiga que é raro eu vomitar, só quando estou muito doente mesmo. Nunca desconfiaria que tudo isso era um presságio de que minha viagem ia ser uma bosta. Aliás, bosta não, porque era vômito mesmo, e dos bons. Estava felizão de pegar ônibus vazio e que ia chegar em casa cedo. Entrei na Mercedes e fui logo sentar no meu lugar preferido, que é "atrás da porta" (todo mundo tem um lugar preferido né?). Já estava preparando meu iPod pra ouvir música, de repente um cara levanta do lugar dele e fica em pé em frente de onde eu estava sentado. Aí eu pensei: "Esse cara tá passando mal, só pode. Tem vários lugares vazios e ele aí em pé! E ainda tá com os olhos lacrimejando, deve tá mal mesmo e sentado deve ficar pior."
Nesse momento, como já é de costume nas Mercedes de São Paulo, entrou um cara comendo batata-frita num treco que devia ser maior e mais pesado do que um saco de cimento. Aí já viu, foi aquela maravilha de cheiro misturando óleo, ketchup e parmesão, e infestando tudo e todos. Mas tinha que "melhorar", ah se tinha! Tudo isso foi em questão de minutos, e eu já tinha descoberto o porquê do outro cara ter levantado e estar com os olhos lacrimejando: num banco do outro lado do ônibus, ao lado de onde eu estava (separado pelo corredor, ao menos!), tinha outro filhote de cruz-credo vomitando algo que era tamarindo sangue, que parecia limão ketchup, mas que era laranja suco [/chaves]. Era um vômito vermelho, com pedacinhos de comida, parecia Strogonoff, haha! Antes que eu desencadeasse uma seqüência de vômitos, eu já logo mudei de lugar, saí de perto do cara para ir dois bancos à frente dele, grandesmerda que eu fiz. Aí eu liguei o "foda-se" e comecei a ouvir música, mas o cheiro era inevitável. Comecei a pensar o que poderia ser o vômito do sujeito, afinal o que é um peido pra quem tá todo cagado? Se eu já estava sentindo o cheiro e ainda havia a possibilidade daquilo escorrer no corredor inteiro, pensar no que ele engoliu no almoço era o de menos.
Eu realmente acho que era suco. Manja aqueles sucos de um real que todo boteco de esquina vende, que tem sabor de frutas cítricas? Talvez eu estivesse confundindo o cheiro da acidez do vômito com o cheiro de frutas cítricas, mas foi a única coisa que eu conseguia associar ao odor daquela meleca vermelha, que felizmente eu não tinha mais contato visual. Misturado com o aroma da batata-frita, minha olfatividade estava pedindo arrego.
Mas pelo menos teve a parte engraçada da história, que era ver a reação das pessoas que entravam e achavam que tinha lugar vago no fundo, mesmo tendo gente em pé e, quando chegavam lá, voltavam correndo; eu tinha que me segurar pra não rir muito alto. Em certo momento do trajeto, entraram na Mercedes três tribufus, ou melhor, as três graças (a sem graça, a desgraça e a nem de graça) que estavam cada uma, com uns cinco quilos de maquiagem na face. Aquelas porra-lôca, vestindo uns pedaços de pano minúsculos, entraram gritando e fazendo o auê. E os indivíduos de pouca sanidade mental que estavam no ônibus adoravam a balbúrdia, era quase uma relação pedreiro X mulher gostosa, sendo que em questão de probabilidade, alguns até poderiam ser pedreiros, mas a diferença mesmo é que não tinha nenhuma gostosa (e olha que meu grau de exigência nem é tão alto assim). Duas delas sentaram nos bancos atrás de mim, que era o da frente de onde estava o vômito. A mais "barrigudinha de favela" (como já dizia uma conhecida minha), quase sentou no lugar vomitado, e eu, que vou para o inferno, mijava de dar risada. O dono do excremento, que já havia mudado de lugar, ainda tentou avisar o tribufu, mas a voz dele foi abafada pelo grito extremamente agudo dela: "aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiii, que nojoooooooooo!!!" Apapu essa mulher, depois dessa eu tirei um lado do fone só para prestar atenção naquela palhaçada. O ônibus inteiro gargalhava e zoava. Mas uma coisa eu aprendi: "não dê risadas dos seus amiguinhos, senhor Daleckzinho!" A gorda sentou do meu lado, que por sinal também estava vago. Só eu mesmo tinha coragem de estar ali tão próximo. Mas meu anjo da guarda é forte, e um minuto depois elas não agüentaram o cheiro e resolveram ir mais pra frente e ficar em pé mesmo.
Nesse momento, faltando uns dez minutos para chegar ao meu ponto, o fedor já fazia parte da minha vida (mas graças a Deus não impregnou na minha roupa). Quanto àquelas coisas que eram mais nojentas do que o vômito, confirmaram minhas suspeitas de que elas iriam para o Expresso Brasil, um puta lugar chato aqui perto que só toca grupo de pagode, sertanejo, axé, forró e funk., também conhecidos como tumor da música brasileira. Elas não sabiam qual era o ponto pra descer e deram sinal errado umas três vezes, aí acho que até o motorista ficou puto e abriu a porta fora do ponto mesmo. Quando elas desceram, os pedreiros comemoravam e urravam, então acho que me enganei quanto a eles, porque parecia que também ficaram felizes quando aquelas hienas saíram. Fiquei curioso pra saber que show elas iam ver, mas quando vi o banner, não fiquei surpreso, era da Tati Quebra Barraco. Cinco minutos depois, na hora que eu fui descer ainda tive que desviar do líquido que escorreu no corredor, como se estivesse num campo minado. Mas pelo menos eu saí daquela bosta (tá bom, eu sei que não era bosta, era vômito).
Chegando em casa, adivinha o que eu jantei? Strogonoff! Bem sugestivo, não?
Mas fica um aviso: vomita na janela, vagabundo, nem que seja pra acertar um motoqueiro!